28.11.18

Quando eles regressam das trevas


Amiga teve um namorado em tempos idos. Mas idos, mesmo! Juntas sofremos na década dos nossos 20, chorámos, perdemos tempo, mas oh!, se perdemos tempo com corações partidos por gajos que não mereciam sequer o nosso interesse!

Há dias almoçámos juntas, recordámos os velhos tempos e ela lembrou-se de contar que o Manel das Couves lhe enviou umas fotos do passado. A relação com o Manel das Couves é simpática, falam-se nos aniversários e no Natal, quando é preciso uma ajuda ou outra para chegar a um contacto de trabalho, coisas simples e breves sem problemas e com boa vontade, mas também não são visita de casa um do outro, nem os filhos se encontram para conviver ao fim-de-semana.

Então recebeu uma série de fotos via WhatsApp, com eles muito novinhos numa viagem que já ninguém se lembrava, tão novinhos que as peles parecem esticadas e que ainda têm dentes de leite.

Só assim, fotos. Sem nenhum texto a acompanhar. Fotos essas que não surgiram do nada, têm de ter sido procuradas num CD ou disco externo, eu sei lá.

A minha amiga olhou para aquela mensagem, obrigada a lembrar o passado e respondeu:

- Estás com uma doença terminal ou divorciaste-te? 

Silêncio.

Minutos depois, a resposta:

- Divorciei-me.

Um homem não falha, é fácil de ler.

E calha que uma mulher com esta idade também já não se engana, muahahahaha!




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29.12.17

Salvar a vida a um homem no Chiado


Ontem, no Chiado, decidi comer um gelado enquanto passeava pelas montras a caminho do parque de estacionamento. Numa mão levava o copinho, na outra a colher. Na Praça de Camões cheguei à passadeira, aguardava pelo sinal para poder atravessar a rua com dezenas de outras pessoas, todos ali apertadinhos como sardinha em lata, eu com medo que alguém me empurrasse para o alcatrão, sempre a pensar que agora detesto Lisboa.

Mesmo ao meu lado um homem com cerca de 50 anos dá um abafado grito de dor: "uuughh!".

Olho para ele. Curva-se sobre si mesmo.

De pé e com as costas dobradas tem uma mão esquerda apoiada no joelho.
Não vejo a mão direita, está agarrada ao peito?

Olho para os lados, ninguém está a tomar atenção.
Pergunto-me: "este homem está a sofrer um enfarte?".

Já não sei o que fazer ao gelado. Olho para ele, olho para as pessoas, procuro fazer uma leitura da situação sem o abordar, procuro desesperadamente perceber se o homem está agarrado ao peito, mas não me consigo mexer e é estúpido pôr-me aos gritos.

Ou então não. Devo gritar?

O sinal fica verde para peões, as pessoas arrancam a toda a velocidade, abre-se espaço entre nós e eu deixo-me ficar no mesmo sítio. O homem endireita as costas e faz uma respiração profunda olhando para o céu, como de alívio.

Continuo parada de gelado na mão a olhar. O que é que se passa aqui?

Afasta-se lateralmente uns 20 centímetros. Quando se afasta aparece um daqueles postes de metal, verdes, que impedem o estacionamento indevido. Percebi então: tinha batido no ferro com as partes baixas, que é como quem diz as vergonhas, os testículos.

Meu rico gelado! Estou cansada deste altruísmo que vive em mim!



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15.11.16

"Quero criar uma marca de sapatos"



"Quero criar uma marca de sapatos", esta é uma frase com que me contactam com enorme frequência. Perdi mesmo a conta às mensagens recebidas com este teor. Mas há algo em comum nestas mensagens recebidas: falta de noção. Não sei como dizer isto de outra forma, não o escrevo com o lado agressivo que a expressão pode ter, procurei um termo alternativo, mas nenhum outro representa isso mesmo.

Eu não levo a mal estas mensagens (de todo!), mas nas entrelinhas é possível fazer leituras de deslumbramentos e perfis completamente desadequados a criar um negócio próprio. A maior parte das vezes mostro as mensagens que recebo a amigos com maior experiência profissional do que eu, peço-lhes a opinião para poder dar acabamentos à minha opinião pessoal e redigir uma resposta, e nestas consultas nunca me aconteceu receber uma opinião contrária ao que pensava.

Criei a ROS LISBON, marca de sapatos, em 2014. A minha licenciatura é de Comunicação, fiz carreira como assessora de imprensa na área da saúde, passei por vários organismos do Ministério da Saúde, por outras entidades privadas, fui feliz (muito feliz) no que fazia e cheguei a uma altura, ao fim de quase uma década, em que já não me sentia profissionalmente realizada. Não sei explicar, passei a sentir-me maçada e sufocada com o que fazia. Hoje olho para trás e acho que estava num processo de mudança pessoal.

Os sapatos sempre foram uma paixão, tinha-os aos montes, apaixonava-me a ideia de fazer os meus próprios sapatos. Depois da ideia, não se criou da noite para o dia, mas a marca foi-se criando. Foi-se preparando o terreno, foram-se ganhando conhecimentos, estudando, até que saiu a primeira colecção. A ideia era: se correr mal, choro o meu dinheiro, a vergonha pessoal e vou à procura de emprego. Correu bem, com o tempo seguiram-se outras marcas e tornei-me algo que nunca me imaginei: empresária.

Venho de uma família empreendedora em que muitos têm negócios próprios em vez de empregos, o que vem já do tempo dos meus bisavós. Não quero com isto dizer que criei as minhas marcas por uma questão de tradição, mas aprendi muito sobre negócios enquanto cresci (o mau e o bom, quantos calotes vi a família apanhar!), trabalhei em alguns destes negócios enquanto adolescente para ganhar uns trocos e todo este cenário de empreendedorismo, de poupança, de investimentos e dinheiro aplicado às vezes com sofrimento, nunca me foi uma coisa estranha, fazia parte do meu ambiente familiar.

Ao longo destes anos não sei quantas pessoas me contactaram dizendo que também queriam criar uma marca de sapatos, mas as perguntas que me colocaram raramente tinham a ver com a minha opinião sobre a área do calçado ou sobre o processo pessoal de mudança profissional. As perguntas foram e são maioritariamente: "como é que eu faço?", "quais as fábricas em que fabricas?", "como é que fizeste tudo?", "também quero", e eu fico ali num dilema "como é que eu respondo a este email de forma honesta, ajudando com a verdade, mas sem parecer uma megera?".

De uma forma directa, sem querer ser indelicada, mas consciente de que para ajudar devo ser totalmente honesta, as questões que me colocam na maioria das vezes põem a minha marca (ou outra marca a que se dirijam) em causa. A resposta às perguntas que me fazem é o que se chama de "papinha toda feita".

Isto de querer facilidades, tudo pronto e apresentado num ideal "passa para cá tudo o que tens", faz saltar uma série de etapas de todo um processo de aprendizagem e descoberta para a criação de um negócio, fundamental para criar uma base sólida de conhecimentos, e por sua vez fundamental para a tomada de decisões. Em suma, parece bom querer e ter tudo facilitado, entregue de mão beijada, mas depois dá cocó.

Isto não significa que sou doente da minha informação e incapaz de dar dicas (como já fizeram comigo). Ainda esta semana uma marca de sapatos me perguntou onde podia fazer aplicações e eu respondi o que sabia. Gosto da pessoa em questão, não vende bem o meu tipo de modelos, ajudei como pude. Também há dias uma marca de sapatos de criança de uma pessoa conhecida me perguntou onde encontrar peles e eu sugeri os meus fornecedores. À minha concorrência directa que faço sempre questão de visitar nos mercados, fazer votos de boas vendas e ter boa relação (quando o outro lado colabora), eu disse onde fazer as melhores caixas sem que me perguntassem. Em suma, não sou obcecada, muito menos egoísta, mas compreendam que tenho de defender o meu negócio.

Em última análise, toda a informação que me solicitam "vale dinheiro". Para uma pessoa chegar aos conhecimentos que adquire ao longo de anos de negócio, foi investido muito dinheiro: em cursos, em livros, em viagens, em feiras, em materiais, em protótipos, em tentativas, em telefone, em gasolina, é um sem número de despesas e de processos de tentativa-erro que, tudo somado, vale uma pequena fortuna.

Não querendo de todo parecer má, de forma directa, preto no branco, a minha opinião pessoal é de que uma pessoa com características pessoais que levam a contactar uma marca com perguntas que representam os segredos de negócio, sem ter noção do que estão a fazer, são características pessoais que não correspondem a um perfil de liderança e de pulso necessário para ter um negócio próprio, seja de sapatos ou outra coisa.

Quando mostro algumas destas mensagens em busca de outras opiniões (opiniões sérias, para não ser só eu), às vezes dizem-me para responder "não quer antes ficar com a minha marca de graça?". Claro que isto é conversa entre amigos e profissionais, não é com este teor que respondo a quem me contacta, mas é exemplificativo do tipo de perguntas que me fazem.

Ter um negócio próprio não é espectacular quanto parece. Esqueçam isso! Eu percebo que existe um deslumbramento à volta disso, mas porque existe uma falta de conhecimentos da realidade.

Pude criar as minhas marcas porque tenho outras fontes de rendimento e tive coragem de o fazer porque tinha uma rampa de lançamento com milhares de visualizações, o blogue. Tenho perfeita e absoluta consciência de que não teria sido possível sem o arranque do blogue.



Deixei umas dicas neste post que escrevi há tempos. Nele eu digo que é fundamental falar com profissionais da área antes de arrancar com um negócio, mas falar não é perguntar às marcas os seus segredos de negócio, os seus fornecedores e muito menos um passo-a-passo de como é que se faz tudo para chegar ao produto final. Esse é o tipo de perguntas que embora eu não leve a mal, é revelador de características pessoais sem perfil para liderar um negócio próprio. São pessoas que me fazem pensar: "se fores em frente vai dar asneira".

No meu caso existia um conjunto de factores e conhecimentos (pessoas) que me permitiram movimentar e aprender rapidamente. Eu tive muita sorte, a vida proporcionou-me as condições para arrancar com uma marca de sapatos e outros negócios que tenho. Para quem parte do zero o cenário é muito mais complicado e demorado, leva anos de estudo e, às vezes, de tentativas.

Dou o exemplo das CLOUDS Ballerinas (sabrinas): levei dois anos de tentativa-erro para encontrar o fabricante que fazia o que eu procurava, fiz uma colecção e poucos meses depois a fábrica informou-me que ia fechar. Voltei à casa de partida depois de dois anos à procura, ficando sem nova colecção e preciso agora de recomeçar o processo para as sabrinas. Isto para mim é um retrocesso brutal.

Para arrancar com a ROS LISBON, comecei por aprender junto de pessoas que já conhecia (e para as quais eu não representava concorrência) e, mais tarde, com a minha experiência pessoal. Estamos sempre a somar conhecimentos, estou sempre a aprender, a descobrir coisas novas e a sofrer retrocessos. Para escolher as unidades fabris, parti de uma única recomendação e também de uma base de dados de fábricas sem problemas financeiros, o que se pede a empresas especializadas na área de finança e entregam uma lista de fábricas com as características que indicamos. Uma base de dados destas custa uns milhares de euros.

Uma das perguntas (normais) que me fazem é se é possível viver do negócio. Logo no início? Não, não é (mas também depende do negócio em questão e do estilo de vida de cada um). Arrisquei em criar a ROS LISBON com resultados a longo prazo, esqueçam resultados de prazo imediato e esqueçam retorno antes de dois anos de vendas. Qualquer gestor de vendas dirá que dois anos é aquele limiar em que um negócio continua ou vai abaixo.

Só agora recuperei todo o investimento que coloquei na marca de sapatos, ficando com um bom fundo para continuar a reinvestir nas novas colecções. Decidi que a partir de 2017 vou começar a tirar mensalmente uma parte dos lucros para mim, ou seja, dois anos e meio após o início da marca. No entanto, isto são também decisões de gestão financeira pessoais, podem variar de pessoa para pessoa e eu retirei valores de uns negócios para começar outros negócios, portanto os cenários não são todos iguais.

Estas coisas levam tempo, não sou deslumbrada com o que já ganhei, sou muito cautelosa e rapidamente aprendi que não devia ter apenas um negócio, por isso estou a somar vários investimentos ao mesmo tempo. Se um correr mal, tenho outros, chama-se diversificação de risco. Fazer isto com capital próprio (não aguento a ideia de ficar a dever), não é possível para todas a gente, bem sei, mas espero começar a colher louros daqui a cinco anos para ter um nível de vida simpático. Recomendação pessoal: não esperem investir e imediatamente começar a ganhar dinheiro, isso não acontece.

Outra pergunta (normal) que me fazem é a minha opinião sobre o mercado português. Honestamente, Portugal é um mercado mauzote, com muito baixo poder de compra e recentemente toda a gente decidiu criar uma marca de sapatos. Mais tarde fui na leva em que toda a gente decidiu criar uma marca de bikinis (mas o meu produto era diferente da maioria, valia a pena arriscar).

Nos negócios a concorrência pode ser grande, ter uma loja tem um custo enorme, os recursos humanos são geralmente de fugir (trabalha-se muito mal em Portugal, as experiências que já tive com funcionários!) e no caso dos sapatos as sapatarias estão a fechar. O meu modelo de negócio não tem venda a retalho, quando tentei quiseram logo passar-me a perna, levar a mercadoria e não pagar. Em Portugal vive-se bem de consciência com dívidas, as pessoas não se importam de dever ou de ver outros negócios arruinados por falta de pagamento. Para ajudar, os tribunais não andam, estas coisas prescrevem ou ficam em águas de bacalhau porque os desertores não têm bens em seu nome. São modos de vida, há pessoas que vivem mesmo assim, a encomendar sabendo que não vão pagar.

Além disso, a média de lucro na venda para retalho é muito baixa. É preciso vender imenso, ter muitos clientes para fazer dinheiro. Sapatos ou outro tipo de produto, já pensaram no quanto é preciso ter à partida para pagar ao fabricante (logo à saída da mercadoria) sem saber quando o cliente retalhista vai pagar ou se vai pagar? Sabiam que a maioria das lojas quer pagar a três ou a seis meses e sabe-se lá se acaba por pagar? Tomando a opção pagamento contra entrega, se o retalhista desistir da encomenda porque não tem como pagar a pronto, se ficarem com a mercadoria em armazém, o que fazem ao produto e ao investimento parado, sendo que as colecções têm três a seis meses de presença?

Ainda no caso dos sapatos, pensaram na concorrência? Os chineses e até espanhóis, são muito mais baratos que o Made in Portugal. A maioria das lojas não quer qualidade, querem assim-assim e sobretudo querem ver preço, um preço que as pessoas possam pagar. Mais depressa querem preço do que qualidade ou design. A maioria dos portugueses não tem poder de compra, são poucos os que investem em coisas boas. São mais os que dão 50€ por uns botins que ficam feios ao fim de uma estação do que os que dão 150€ por uns botins que duram quatro ou cinco anos. Além disso, os portugueses são pouco patriotas, estão-se nas tintas para o que é nacional. Um inquérito que fiz sobre fatos de banho, com respostas surpreendentes, mais de 80% revelou não ter qualquer importância escolher produtos portugueses.

Não gosto de retirar sonhos a ninguém, mas a maioria das pessoas que me escreve dizendo "quero criar uma marca de sapatos", ao longo das mensagens  torna-se evidente que não têm perfil para o fazer. Talvez alguns precisem apenas de mais experiência profissional a trabalhar para outros e menos ansiedade para dar o salto, ganhar experiência. O que não é vergonha nenhuma, uns nascem com mais perfil para umas coisas do que para outras. Eu por exemplo não comecei isto cedo.



Não me comparando ao Mark Zuckerberg, é isto, sem tirar nem pôr. Ter um negócio próprio (no meu caso vários) é um trabalho constante, não há horas livres. Eu estou sempre a trabalhar, sempre com um telefone na mão (vou agora ter dois iPhones ao mesmo tempo, percebi que preciso), eu estou sempre a olhar para os pés das pessoas, eu falo imenso sobre trabalho, eu não faço uma viagem sem explorar o que se faz por esse destino nas minhas áreas de negócio (embora não me custe, esse tempo não é de férias), eu vou a um casamento, vejo um vestido e imagino umas costas para um fato de banho, eu vejo um filme, uma revista, tenho um sonho e surge uma ideia. É um trabalho absolutamente constante, diário e nocturno, 365 dias por ano, o que para algumas pessoas pode ser desgastante, ser confuso ou mesmo dar problemas quando pensamos neste tipo de comportamento junto de uma família/marido/namorado que não leva o mesmo ritmo de trabalho ou não consegue compreender/acompanhar.

Como diz o Mark, "that's basically my whole life". Mas isto também traz problemas: ter tanto em que pensar e, no meu caso, vários negócios, às tantas o tempo não estica para tudo e há coisas que se perdem pelo caminho ou que não são como gostaríamos, como por exemplo eu estar há mais de um ano para mudar o site da ROS LISBON que eu sinto que já não representa a minha marca e as minhas necessidades (mas a mudança está para breve!). Ou o tempo que levei para ter um escritório organizado como deve ser, que me facilite o trabalho e a cabeça, o que vai acontecer agora à lei da força porque vou ter um bebé. Ou o não ter arranjado a tempo uma alternativa para um fabricante de sabrinas e ter ficado sem colecção de inverno. Há muita coisa má e frustrante na criação de um negócio, mas disso pouco se fala.

Seja o que for que escolherem na vida, boa sorte!

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26.7.16

"Knock, knock!"

Creio que todos os portugueses são familiares aos nomes "Operação Paelha", "Operação Remédio Santo", "Apito Dourado", entre outros nomes que designaram grandes investigações da Polícia Judiciária. Não entrando propriamente no mundo da investigação, estou a preparar-me para o mundo da "lição", começando a estudar a hipótese de dar início à "Operação Cirque du Soleil".

Com estes dias de verão, eu e o PAM, em dias que podemos, temos tirado algumas manhãs para dormir e acordar sem a música do despertador. Só que algumas vezes isso acontece nos dias em que a senhora que nos limpa o lar aparece em casa. Então, acordamos com as chaves, a porta a abrir e os ruídos a que o trabalho de limpeza obriga.

Até aqui tudo normal.

E nós, nos dias em que podemos, na cama nos mantemos apesar de acordados, umas vezes a ver as notícias nos telemóveis ainda no escuro, outras vezes a descansar os olhos no escuro à espera que a energia desça para nos levantarmos da cama e à vezes nem o PAM está e sou eu que estou sozinha na cama e no quarto.

E há coisa de uns dois meses começou a dar-se um fenómeno que me irrita profundamente: como temos o cesto de roupa suja no closet (que é dentro do quarto) e estando os estores para baixo, a senhora que limpa a casa parte do princípio que estamos a dormir profundamente, não bate à porta e entra no quarto abrindo a porta de mansinho, vai buscar cesto para lavar e sai de mansinho novamente.

E da primeira vez incomodou-me, mas uma pessoa não vai implicar por um esquecimento no meio do escuro. Da segunda começo a perguntar-me o que se passa. Da quinta em diante de cada vez que a porta se abre sem o "knock, knock" até me fervem as costas e percebo que se tornou um hábito.

Eu percebo a intenção que é achar que estamos num sono profundo e não querer acordar-nos, como se fosse possível. Mas depois penso na equação "quarto de casal + onde dorme um casal + onde casal está às escuras + quarto silencioso + privacidade", se calhar não era mal pensado desistir na boa intenção de "deixar dormir" e jogar pelo seguro.

Nunca interrompeu nada, nunca apanhou nada, nunca viu nada, nunca houve nenhuma situação chata, mas isto provoca-me calores nas costas. E causa-me constrangimento ter de ensinar uma coisa básica a um adulto, sem falar na falta de paciência que me invade para coisas elementares e pouca disposição para a chatice. Sou uma pessoa pela paz.

Então, queria preparar a "Operação Cirque du Soleil". Esta semana pretendo começar em treinos para esta posição para a qual seremos apanhados em "flagrante". O objectivo é matar a senhora de vergonha e nunca mais ter coragem de entrar numa divisão de porta fechada onde nos encontremos, pelo menos sem bater à porta.

Espero que o PAM alinhe, senão terei de rasgar as cuecas ao homem e deixá-lo em pelota nano-segundos antes de a senhora entrar no quarto de mansinho, sem bater à porta, pela quinquagésima vez.


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2.6.16

"Eu sou muita forte nas redes sociais!", só que não


Nos últimos dias a minha vida profissional virou arma de arremesso na página de facebook. A cada coisa que escrevo e o leitor não gosta, leio coisas como "pode ser que nunca mais te comprem sapatos", "pode ser que as pessoas repensem comprar os teus bikinis!".

E embora isto não me faça mossa na facturação, pois não apago os comentários, continuo a esgotar modelos rapidamente e não ter mãos a medir, acho tão feio, mas tão feio, tão mau carácter desejar que o trabalho de alguém corra mal, que fico sem palavras.

Fico chocada, acho incompreensível que se possa desejar mau trabalho a alguém por uma razão fútil como "não concordo com nada do que dizes". Impressiona-me mesmo, mas por outro lado, quem escreve estas coisas só pode ser uma pessoa profundamente insatisfeita com a vida profissional, de outra forma não lhe ocorreria desejar uma coisa destas a alguém que, de forma evidente, se esforça por trabalhar e construir algo.

O que aconteceu ao "não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti"?

Há dias a Bad escreveu:

"Ontem fui-me deitar e o José Cid era uma besta. Hoje acordei e o Casillas é racista. Na semana passada era o cabelo da Mariza e na anterior o peito da Carolina (...)",


e fiquei a pensar nisto. Há mesmo muita dedicação ao cultivo de ódios. Sempre passei ao lado de todas estas questões e a única coisa que me deixou impressionada nunca foi o objecto de ódio, mas os comentários.

Nunca terão percebido as pessoas que se forem simpáticas para as outras temos retorno e os nossos dias são também mais simpáticos?

Voltando às piquenas que comentavam na mina página, deixo a pergunta para queijinho: se soubessem o que o Amancio Ortega pensa (dono do grupo Inditex com a Zara, a Pull and Bear, a Massimo Dutti, a Bershka, a Stradivarius, a Oysho, a Zara Home, a Zara Kids, a Uterqüe, a Lefties e se calhar outras), se não concordassem com opiniões dele, as meninas vestiam o quê? Também deixavam de lá ir?

É por isso que esse raciocínio é parvo, pouco abonador da inteligência e eventualmente hipócrita.

Convicta de que não me vou tornar um fantoche das minhas marcas com intuito puramente comercial, passando a ter medo de escrever os meus pensamentos e até a "gostar" de gatinhos e crianças (até porque não tenho jeito nenhum para ser mentirosa), deixo uma mensagem para o dia de hoje:



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3.5.16

A primeira de 2016

Eram 5h da matina, estava a dormir há menos de 4h quando a gaja passa por mim no escuro do quarto:

- BZZZZzzzzzzz...

Imediatamente dei conta que já fui devorada nos braços. Então, faço o que toda a mulher deve fazer, acordo o homem.

- Está uma melga no quarto, não consigo dormir!
- Acabou de passar por mim, filha da p*t@!

Acendemos a luz. Está a ofensiva de guerra montada, daqui partimos para material bélico. O Obama está para os terroristas como nós estamos para as melgas: não negociamos.

O PAM vai buscar aquela cena eléctrica para afastar melgas e a seguir, também ele mordido, o Tabard para acabar com a comichão. Vem até mim para partilhar o roll-on e nesse momento mando alta chapada em mim própria.

- Matei-a! - disse triunfante com um cadáver na minha bochecha.

A partir daí foi sempre a dormir, mas não está a dar-me beijinhos nessa bochecha, o mete-nojo.



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30.3.16

Método parental que não me impressionou


Deixemo-nos de rodeios: eu não gosto de toda a gente. É verdade, não é nenhuma qualidade, não é uma rebeldia sem causa, mas acho impossível que se possa gostar de toda a gente. Podemos, isso sim, ser cordiais e educados com todos, goste-se ou não.

E isto de não gostar das pessoas é válido para qualquer um, até mesmo dentro da minha família, havendo com quem não fale há mais de 10 anos. Não há guerras, não há olhares, não há insultos, não há nada. Quando chego às festas cumprimento todos menos um, quando janto à mesa falo com todos menos um. Tudo na maior das tranquilidades: não penso nisso, não desejo nem mal nem bem, é assumir que não dá e vai para uma década que não se troca uma palavra. Nunca me arrependi, foi uma decisão acertada que nunca vai mudar.

No entanto, não significa isto que não falasse com a descendência, um primo, de quem gosto. Aqui o justo não paga pelo pecador, não misturo águas, cada um é como é e independente do pai ou da mãe que lhes calhou em sorte.

Na Páscoa, num almoço de família, falava com um primo sobre a depilação a laser. Maior de idade, vinte e poucos, não é o homem da fotografia, mas a vida deu-lhe muitos pêlos. E vejo que aquilo é tema que o chateia, que é um assunto em que pensa, que mói, para além de que no verão deve ser um incómodo.

Éramos três a um canto de uma sala, falávamos de pêlos, de como não faço depilação há 9 anos. Afirmava eu que se lhe incomoda, devia experimentar a Ultimate Laser. A ideia dele não era sequer ficar liso como um bebé, era tirar pêlos dos ombros, criar uma separação entre os pêlos do peito e a barba, coisas que imagino que incomodem qualquer homem. E por isso recomendei-lhe algumas sessões, explicando não iria ficar como uma mulher, mas iria sentir-se sem dúvida melhor.

Era uma conversa trivial, do meu lado que tenho a experiência era meramente informativa. Do outro lado, perguntas normais de quem desconhece o método mas parece um sonho ver a solução para um complexo que carrega. Contei até que o PAM tinha feito depilação a laser entre as sobrancelhas e nos mamilos, não para ficar como uma menina, mas para ficarem menos espessos e menos pretos, deixar de ter o ar de mato. Na verdade eu cheguei a dizer para não fazer os mamilos, mas numa duas sessões tive de reconhecer que ficou com muito melhor aspecto e continua homem, com pêlos, mas sem ar de alcatifa.

Falava normalmente com o meu primo quando a conversa foi interrompida:

- Era o que me faltava fazeres depilação, punha-te fora de casa! - disse a mãe.

Quanto preconceito e ignorância.

Nem sabia que estávamos a ser ouvidos. Humilhado, o meu primo deu com os olhos no chão, o que me matou de pena. Eu, tive de engolir a estupidez, reforcei a minha opinião (não dá mesmo para falar com esta pessoa), outro primo ficou em silêncio constrangido e foi isto. Ficámos ali largados ao silêncio da estupidez, mantendo-me calada para não criar dramas familiares, olhando para o meu primo que depois encolheu os ombros e me sorriu, tentando fingir que não se tinha importado com aquele momento de merda e de humilhação.

É triste que não respeitem os nossos desejos para coisas básicas que não trazem qualquer mal ou consequência grave. Quanto preconceito e ignorância! Parece que anunciou que iria deixar de estudar ou ou foi apanhado a injectar heroína nos braços (verdadeiros motivos para querer despejar e assustar um filho para fora de casa).

Esta porcaria, o som daquela frase por causa de um não-motivo está-me a fazer eco na cabeça há dois dias. Não me sai do pensamento. Sempre achei uns merdas as pessoas, particularmente pais, que para se fazerem ver, ameaçam com a porta da rua. Um deixas de viver comigo e viras sem-abrigo! ou um não te pago mais nada!, como se o filho fosse delinquente. Só faltou ouvir se fazes depilação morreste para mim!

Quanto preconceito e ignorância.

Não houve ali um papel de maturidade que se espera de um adulto. Não houve ali qualquer ponderação de procurar conversar mais tarde, de pensar que lhe fazia confusão um homem fazer depilação mas tentar compreender a vontade, olhar aos motivos em vez de se centrar no umbigo da intolerância eu é que mando e é assim que tem de ser.

Sempre achei (e acharei) uns merdas os pais que acenam a porta da rua para se fazerem compreender. A vida dá-lhes a opção de conversar e tentar compreender e preferem antes agarrar no martelo da ameaça, o método fácil e egoísta. O ponho-te na rua é tão mau que até tenho dificuldade de escrever este texto e explicar as emoções negativas que provoca em mim. É de mau carácter, é de um merdas.

Esta forma de acção parental lembra-me um grupo que também rejeita o diálogo e a liberdade, querendo fazer vingar as suas opiniões e vontades pelo método da força: o Estado Islámico.

Se algum dia vier a ser mãe, espero nunca usar o argumento do ponho-te fora de casa. É reles, baixo, ordinário e próprio de quem não tem vocação para o diálogo, a compreensão e a paternidade. Até porque odeio bluffs, é coisa de gente fraca. Só os fracos e os merdas dizem coisas para provocar medo sem sombra de vir a cumprir as afirmações.

Conheço quem tenha ouvido merdas dessas repetidamente de um pai. Acabou por um dia começar a trabalhar, sair de casa, mas nunca esqueceu as ameaças e viverá para sempre com os convites da porta da rua na sua memória. Era um pai "porreiro", daqueles, os merdas.

Sei bem que posso arranjar problemas por ter escrito este texto, mas talvez o risco valha a pena se fizer algum pai ou mãe pensar nas emoções negativas que provocam a um filho quando os ameaçam em pôr fora de casa. Por aí, quais são as memórias que querem deixar aos vossos filhos?




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23.3.16

Perdido na vida aos 30?



Cruzei-me com esta imagem e não pude deixar de sorrir. Eu tinha 35 anos quando desisti da carreira para me dedicar a negócios e, mais particularmente, à minha marca de sapatos. Só passaram dois anos, há ainda muito caminho para percorrer, muito que vingar e até muito que me provar, mas não posso dizer que me tenha arrependido.

Dicas pessoais:

- Enquanto desesperam num emprego horrível não se esqueçam que estão a ganhar experiência. O truque é não olhar para esse emprego como o fim da meta, mas o sítio de onde se vai dar um salto, isso dá-nos alento. Eu também estive em sítios que não gostei, sobrevivi e, olhando para trás, ainda bem que passei por esses empregos, deram-me sabedoria.

- Há tempos falava no Skype com um primo que vive em Bruxelas, acabou o curso superior e nada de conseguir emprego há meses. Perante isso contactou-me para estudar ideias de negócio, mas honestamente, não aconselhava a ninguém a começar um negócio sem ter uma boa experiência profissional. Eu fiz um curso superior de Comunicação, cinco anos a estudar que me custaram horrores porque eu queria era trabalhar e fiz quase 10 anos de carreira como Assessora de Imprensa em vários organismos de um Ministério. Nesses anos, juntei, juntei, juntei dinheiro. Nunca o fiz a pensar na criação de um negócio, fi-lo porque sou assim por natureza, fui ensinada a poupar, mas não há dúvida que só isso permitiu que arriscasse na minha marca (nunca iria pedir emprestado, nem a bancos).

- Persistência. É bom ter boas expectativas, mas vai quase tudo correr mal. O lado bom é que o que corre mal faz-nos aprender mais alguma coisa. Honestamente, eu já aprendi a relativizar, mas demorou dois anos. Antes ficava possuída dos nervos, ansiosa, desgraçada (a tal falta de experiência para quem começou um negócio) e hoje em dia quando as coisas correm mal, encolho os ombros. O segredo é olhar para o que está mal, não me concentrar no erro, mas na solução: o que posso fazer para resolver esta merda em tempo útil? E às vezes não é possível, mas aprendemos a viver com isso. Pior, é que raramente cometo erros e nunca cometi nenhum realmente grave. Os erros vêm dos fabricantes, o que torna tudo mais difícil. Mas há que aprender a relativizar.

- Há pessoas que perante a ideia de se criar um negócio levam aos mãos ao céu porque "os tempos não estão para isso!". Há as que acham tudo espectacular, o risco e o investimento não é delas, querem lá saber ou acham que é tudo fácil. É difícil juntar a mistura de opiniões ao que nos diz o coração. O segredo é não fazer tudo em três tempos. Amadurecer as ideias dá-nos distanciamento para poder fazer uma melhor avaliação e, muito importante, procurar falar com pessoas da mesma área de negócio, o que pode ser muito complicado de fazer pois são uma eventual concorrência.

- Se o negócio for um produto ou um serviço, se forem como eu que usei o blogue para lançar a marca, preparem-se para uma chuva de maldade. Não contei com isto (porque não me ocorreria fazer aos outros), mas as pessoas são más e muitas delas por não terem sido capazes de fazer o mesmo. Pessoas que me gozaram, que me acusaram de copiar o nome da marca (que é o meu nome), que escreveram que havia modelos iguais em lojas rascas, que falaram mal dos preços, que falaram mal do produto sem o ver, que no fundo, deixaram transparecer o mal que desejavam. Pessoas dessas vão sempre aparecer. Vai magoar e desiludir. Não há segredos nem soluções para isto, é viver a tristeza que os outros nos deixam (é inevitável), tentar manter a cabeça erguida, olhos em frente que dali a uns meses esta malta habitua-se ao sucesso alheio, deixam de aparecer e metem a viola no saco.

- Há pessoas que conhecemos, alguns consideramos amigos, e perante um pedido de contacto, um favor de nada, revelam-se verdadeiros escroques. O mau disto é a surpresa infeliz, o bom disto é a revelação, não perdemos mais tempo com estas criaturas, temos mais onde investir o nosso tempo e o caminho não nos deve voltar a unir.

No entanto, há nesta equação uma experiência que não tenho: tive sorte, o arranque correu lindamente, acho que estou no bom caminho, profissionalmente as coisas correm-me bem e tenho estado sempre em crescimento. Ainda há muito trabalho pela frente, mas não sei como é (nem quero saber) o que se faz, como se faz, quando corre mal e temos de atirar a toalha ao chão, desistindo.

Existe uma grande diferença entre uma expectativa optimista e a ilusão. Há pessoas que são deslumbradas e, por isso, péssimos perfis para ter um negócio próprio. Sobretudo, falem com muita, muita gente. Mas mesmo muita gente, menos das que conhecem e mais das que não conhecem de parte alguma. Antes de começar a minha marca de sapatos, depois de ouvir os mais próximos, por mais estranho que possa parecer, peguei no telefone e pedi para falar com os proprietários de outras marcas de sapatos portuguesas. O pior que me podia acontecer seria não quererem falar comigo. Os donos de muitas marcas falaram, sobretudo as maiores, as marcas mais pequenas foram um bocado mete-nojo, mas consegui retirar alguma coisa dessas tantas chamadas que fiz, até mesmo como não ser se alguma outra pessoa como eu me contactasse no futuro.

Curiosamente, isto de falar com outros fiz antes para uma outra ideia de negócio que acabei por desistir e, vejo agora, foi boa decisão. Lição: falar com profissionais da área é fundamental.

Muito importante: pessoas que não sabem ouvir os outros, que não suportam ser contrariados, esqueçam a ideia de criar negócio próprio. Isso é dinamite. Eu estou sempre, constantemente, a ouvir, a pedir opiniões, a ler comentários, a vasculhar, a fazer perguntas. Quando faço sair novas colecções, geralmente não pergunto às pessoas o que gostam, pergunto o que não gostam e porquê. É fundamental para procurar fazer melhor e evoluir.

Godspeed!


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22.3.16

Cruzei-me com um ex-namorado


Ontem cruzei-me com antigo namorado. Olhando para trás, não posso dizer que ele tenha sido espectacular para mim. Racionalmente devia desejar hemorróidas vitalícias e corrimento peniano a quem acabou uma relação por telefone enquanto estava a caminho de casa dele para irmos ao cinema que ele sugeriu. Não soube ver na altura, mas mais tarde soube ver que nunca gostou de mim. E não se pode obrigar alguém a gostar, não lhe levo a mal. Olhando para trás, fico mais zangada pela fingida enchente de esperanças que me enganou do que com o facto de não se poderem criar sentimentos onde não os há.

E ontem, tantos anos depois, quando ia a sair do ginásio, suada, porca, feia, de fita na cabeça e cabelo colado, deparei-me à porta com uma tempestade de chuva e granizo. Saí junto ao prédio para me proteger da chuva, passei encostada às janelas de vidro que dão para o interior do ginásio, olhei para dentro por acaso e lá estava ele, vestido de fato numa mesa falando com outro homem, este de costas para mim.

O gajo não envelheceu um ano. Nada! Está igual!

Olhei, ele olhou e voltou a virar a cara. Não sei se quis fingir que não me viu ou se viu alguém, uma pessoa, e virou a cara, não percebendo que era eu. É possível.

Ao olhar, depois de constatar que não havia uma ruga ou uma pele pior a somar idade, pensei com surpresa: "olha quem é!". Noutros tempos haviam de me tremer as pernas dos nervos, o coração disparava ameaçando um enfarte, começava a ficar indisposta e os intestinos a querer mandar a matéria toda para fora. Noutros tempos, imediatamente pegaria no telefone para ligar à Li ou à Kiki em modo parvo-sem-inteligência: "o que é que eu faço??!", esperando das minhas amigas sábias recomendações que seriam altamente bem sucedidas.

Noutros tempos, fugiria dali para me recompor da surpresa e depois de respirar fundo, havia de me colocar a jeito de ser vista e forçar um encontro. Quem saberia o que poderia sair dali? Talvez a surpresa do encontro provocasse uma conversa, depois um telefonema, depois quem sabe um jantar. Bem vistas as coisas, tudo para reatar uma relação que nunca me fez particularmente feliz, mas com a eterna esperança do "agora é que vai ser!". A esperança nunca foi amiga das desilusões amorosas, anda de braço dado com a burrice.

Esquemas e mais esquemas. Depois crescemos. Ou melhor, umas pessoas crescem e aprendem com os erros, outras ficam sempre na mesma. As que crescem, passam a valorizar quem valoriza, deixam de querer apenas agradar para serem o que o esperam delas, passando a ser elas próprias, com todos os defeitos e sem medo de os mostrar.

Tenho pena que não me tenha visto ou fingido que não me viu, gostava mesmo de lhe perguntar o que é feito, onde está a trabalhar, se casou e tem filhos, onde tem andado estes oito ou nove anos em que mais nada soube dele depois de ir trabalhar para a Ásia. Genuinamente, gostava de saber dele e de coração, desejar-lhe que todos os objectivos e ambições se concretizem.

Por mal ou por bem, todos os namorados que me fizeram sofrer trouxeram-me aonde estou: segura de mim, das minhas coisas, dos meus projectos, sem aturar merdas de alma alguma e com uma pessoa que não poderia ter mais a ver comigo. Ah, os trintas são tão melhores que os vintes, somos tão mais sábias.

O sofrimento amoroso pode deixar-nos de rastos. A mim deixou, vezes seguidas. Sempre ouvi dizer que "tudo passa" e estas respostas de suposto conforto caiam-me como tijolos no peito atirados à força bruta. Ninguém percebia como me sentia ou eu não me conseguia explicar. Para mim o mundo tinha acabado, nunca mais ia ser feliz quando, se soubesse, ainda nem sequer tinha encontrado o melhor da felicidade a dois.

É incrível como há pessoas que nos magoaram tanto que depois do tempo passar deixam em nós um que é feito de ti?, acompanhado de um sorriso genuíno, de um conta-me que andas a fazer da vida!, tudo regado a um interesse verdadeiro de saber, de dar dois dedos de conversa e um beijinho.

E depois disso, voltar a casa, àquilo que me preenche e rir no elevador lembrando o que sofri por merdas que não valiam a pena. Tudo passa mesmo. E não só passa como se torna indiferente. Mas leva o seu tempo. Por isso, quando disserem a alguém que um desgosto passa, digam também que o tempo demora, mas é implacável.




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18.12.15

Um dia mato este gajo #57


Estou a trabalhar num plano excel. Ele entra no meu escritório com má cara, com ares "agora que acabei vais levar um raspanete".

- Quase me fazias perder o emprego!
- Ãh???
- Sim, quase! Fui contratado pelo Barcelona, sou o melhor treinador do mundo e vais chatear-me com documentos para enviar à advogada!

#odeiooFootballManager
#quandoéqueelescrescem?


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3.12.15

700 milhões de euros em compras


Notícia aqui.

Em Portugal gastaram-se 700 milhões de euros em compras na semana do Black Friday. Uau!

O dia do Black Friday foi para mim dia de montagens no mercado Winter Market Stylista que ia ter durante todo o fim-de-semana. Por isso, a hipótese de ir às lojas era nenhuma, logo eu que precisava de camisolas.

Mas quando acabei a montagem pelas 20H convidei a minha equipa a ir jantar ao sushi do Alegro, que era perto do local do mercado. Assim que entrámos no estacionamento caiu-nos o queixo.

Juro, só vi o Alegro assim uma vez na vida e era 24 de Dezembro. Pareciam varejeiras em luta por um lugar de estacionamento.

Ao passar por eles, os elevadores iam apinhados de gente, como sardinha em lata.

A custo, conseguimos estacionar, aquelas sortes de apanhar alguém de saída. Na restauração, o panorama era de loucura. Apanhámos pessoas a desocupar uma mesa e ali pregámos o rabo. Quando acabámos de jantar, pelas 22H, o centro comercial parecia estar mais ligeiro e arriscámos dar umas voltas pelas lojas que estavam de pantanas. Desisti e fiz compras online, já em casa, a olhar para o relógio nos últimos 30 minutos de o Black Friday acabar.

Mas isto para dizer que assim que entrei no centro comercial a pergunta que me fiz foi: eu queria mesmo saber quanto os portugueses gastaram nesta semana. E o Dinheiro Vivo respondeu: 700 milhões de euros.

Novembro foi para a minha marca um mês histórico, o meu fabricante de malas diz que vai ter de meter mais pessoal porque está sempre atrasado nas encomendas que aparecem cada vez mais e vi muita, mas muita gente no Winter Market Stylista a fazer compras, não só a passear.

A economia portuguesa já mexe mais e dá gosto ver! É esperar que este governo não estrague com facturas pesadas no futuro.

Quanto às fraudes, notei que a Massimo Dutti tinha um sobretudo de homem que vimos na loja (lindo!) esgotado em todos os tamanhos. Por milagre, no dia seguinte já todos os tamanhos existiam.

Também a ZARA deixou de ter os Special Prices na coluna de pesquisa.

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16.11.15

Um dia mato este gajo #56

Este deve ser dos melhores episódios proporcionados pelo PAM. Mas é impróprio para cardíacos.

Assim, se é um enjoadinho do pior, se tem vómitos só de imaginar um cagalhão, não leia a partir daqui. Eu avisei!

***

Voo Lisboa - Rio de Janeiro. A determinada altura de um voo de 9H20M, o piqueno teve vontade de evacuar. O que fazer, uma pessoa também não pode criticar, é humano e tem necessidades. Mas tudo o que se seguiu em vez de ser a acção da Natureza, foi um filme de terror.

Ele estava a demorar que tempos, eu achei que estaria a desintegrar-se. Não era isso, mas era tudo digno de um filme de Hitchcock, como veio a contar-me posteriormente, altamente incomodado.

O homem entrou na pequena cabine de WC, fez o serviço, tudo tranquilo, sem grandes pormenores a reportar, até que se lembra de puxar o autoclismo ainda com a tampa levantada. E é então que se dá o momento de horror.

Algo acontece, dá-se um qualquer fenómeno de vácuo na retrete sem canos que faz explodir micro-gotículas de cagalhão pelos ares.

Espirrou para todos os lados, em bom português.

O PAM foi altamente atingido por estilhaços e quando se olhou ao espelho até tinha pintas de fezes no cabelo. Diz que brilhavam como bolas de sabão a pousar nos cabelos.

E tinha uma camisa branca, impecavelmente passada a ferro, o que torna o evento inesquecível.

Ele demorou que tempos no WC porque esteve a lavar o cabelo e a camisa com toalhitas de limão da TAP.

Chegou a mim com alta cara de caso, cheio de medo de estar a tresandar, logo ele, o homem mais limpinho que conheço.

É claro, estive o resto da viagem a aterrorizá-lo: "cheiras a cocó", mesmo que não me cheirasse a nada senão a limão, enquanto ele se cheirava como um bicho e suspirava uns "estou cheio de merda".

O alívio que foi para este homem chegar ao hotel e tomar banho?

Senhores da TAP, obrigada pelas toalhitas de limão.
Moral da história: baixar sempre a tampa antes de puxar o autoclismo.




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4.11.15

Um dia mato este gajo #55



Meu homem, que podemos chamar de Maria Amélia neste texto, não resiste em apanhar alguma moléstia nas viagens que fazemos. Ora é das costas, do pé, uma febre, uma constipação, é uma lotaria viajar com a Maria Amélia.

Logo no voo de caminho a Roma, meia-hora depois de levantar voo, diz-me: "estou a ficar esquisito da garganta". E a partir daí foi sempre a piorar.

Até que no dia de regresso, todo ele era ranhos, a assoar-se a cada 10 segundos, sempre a fungar, eu nem chegava perto dele! Com os meus lenços de papel a acabar, antes de sairmos do hotel, o homem surripiou um rolo de papel higiénico que colocou na bagagem de mão dele.

Chegados ao aeroporto, tratámos do check-in e dirigimo-nos para a zona de raio-x. Eu fui à frente, ele ia atrás. Estava gente, mas não estava cheio.

Passou a minha mala, passei eu, o homem ficou na minha lateral esquerda, eu recolocava os brincos que tinha deixado no tabuleiro, ele abria espaço na mala para recolocar o iPad e, de esguelha, o meu olho percebe que algo que caiu da mala do PAM, para lá do tapete, na zona interdita (onde está o senhor que visualiza o resultado do raio-x, mais uns seguranças e tal).

Ao mesmo tempo que senti que caiu alguma coisa, inclinei-me para ver o que era.

Passa por mim um rolo de papel higiénico a desenrolar-se em todo o seu comprimento.

O piso tinha alguma inclinação, o que deu aceleração ao papel higiénico que se estendeu pela gigantesca sala em todo o seu esplendor.

No momento em que percebi que era o rolo de papel higiénico, os meus joelhos fraquejaram e comecei a rir como uma hiena. Eu sabia que as pessoas estavam a olhar, mas não conseguia parar.

Nisto, os seguranças percebem que há um objecto rastejante em movimento, dois deles começam a correr atrás do tapete branco que se vai formando a ver se lhe encurtam o comprimento.

O PAM com os braços no ar tenta explicar por mímica que é para o nariz, que está constipado, não fosse alguém pensar que era para o rabo.

Alguém apanha o rolo, eu continuo a rir curvada sobre mim mesma sem conseguir enfiar o portátil na mala, os seguranças devolvem uma parte do rolo (a utilizável), uns riem, outros olham muito sérios e tentam avaliar se não estamos a causar uma propositada cena de distracção para instalar uma bomba e lá saio da zona ao tombos de gargalhadas enquanto o PAM continua a explicar que era para o nariz.


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25.9.15

A minha mãe diz que sou má cliente


A minha mãe é designer. E sendo uma boa designer, é óbvio que toda a vida me tenho pendurado nela para me ir fazendo umas coisas.

Isto ganhou outra relevância a partir do momento em que criei a minha marca. Rabisquei um logo e "mandei" fazer. O logo, os cartões, as caixas, e muitos etcéteras.

E como eu, ali bate à porta a família inteira para fazer isto e aquilo, em busca de favores. A partir de determinada altura passei a fazer pagamentos, que são pagamentos muito simbólicos, não me custa o mesmo do que se tivesse de ir bater à porta de uma designer. Pago umas coisas, outras não e o que me interessa é que posso confiar cegamente que dali sai um bom trabalho. É que nem me preocupo com coisas como "de que tamanho queres os cartões?", "como quiseres". Ter a minha mãe como designer poupa-me o trabalho de não ter de pensar em coisas pequeninas. Mas se eu digo à designer que isso para mim são "coisas pequeninas", é um ohmeuDeus!

E a minha mãe tem um computador que detesto, inoperável para os mortais, mas de onde saem coisas lindas, um MAC.

É ali que estão guardados os meus logótipos e todos os documentos que me desenhou. A pasta podia ter o meu nome, o nome da minha marca, primogénita (já que sou a primeira filha), filha mai'linda, mas não, nada disto. Demorei mais de um ano para descobrir que a minha pasta chama-se: 

"clientes de merda".

Isto é mesmo pedir para a deixar num lar...

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8.9.15

Ai, os meus milhões!

A relação com o meu banco deteriora-se de dia para dia. Já há muito que venho a encher a paciência, em Maio escrevi este texto e hoje quis saber o que era um débito que 36€ que não consigo adivinhar. Aparece como "contrato SPA", eu não tenho contratos com esta sigla e "SPA" só me lembra Sociedade Portuguesa de Autores.

Contacto a minha gestora de conta, saiu, já não trabalha no balcão:

- OK, não tem problema, com quem devo passar a falar? E queria saber o que é este débito.

- Não posso dizer, tem de vir ao balcão porque não a conheço. Se a conhecesse...

- Mas a Patrícia conhecia-me. Eu não posso ir ao balcão de cada vez que o pessoal muda, o que é normal que aconteça, não tenho problemas com isso. Mas não me peçam para atravessar a cidade para saber de onde vem um débito. Que dados precisa que lhe dê para que seja autorizado a dar-me a informação?

- Tem de vir ao balcão.

- Não leve a mal, eu sei que faz o seu trabalho o melhor que pode, mas peço-lhe que diga aos seus superiores que esta relação que tenho com o banco e que se deteriora de dia para dia, para mim é como um namorado que já não quero ter. Isto não funciona mais, tornam a minha vida num inferno.


Nunca mudei de conta. Nunca! Tenho esta conta desde tenra idade, abri a conta da minha marca no mesmo banco porque me faz sentido juntar tudo no mesmo sítio, mas o Millennium BCP não me ajuda, só me dificulta a vida. E tenho de entregar para o ar e saber desistir.

Faz-me a maior das confusões ter de mudar o meu NIB em todo o lado, nem sei onde tenho de fazer alterações. E os favoritos de contas que tenho gravados no meu home banking. E os anos de antiga cliente que se perdem. O trabalho que isto me vai dar! Mas já tenho banco e gestora de conta, uma amiga com quem tenho vindo a falar. A partir daqui espero que a minha vida venha a ser melhor. E vou de cláusula: para onde for a minha gestora, eu vou atrás.

Agora quero ver o inferno que vai ser transferir tudo de um lado para o outro. E pagar 120€ só para desactivar o terminal multibanco.



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7.9.15

Um dia mato este gajo #54

PAM apanha um táxi.

PAM adora dar conversa a estranhos, não pode ver um drogado, um indigente, quer logo dar conversa, é uma necessidade interior que não consegue controlar. Quantas vezes já me encostei a uma esquina de braços cruzados (e grandes trombas) à espera que o senhor acabe o seu discurso com um qualquer indigente porque continuei a andar a ver se ele interrompia o discurso? Quantas vezes, Senhor, quantas vezes rolei as esferas dos meus olhos com o paleio que a minha metade tem para dar a estranhos?

Mas dizia eu, PAM apanha um táxi. Pouco tempo depois de sentar o rabo no assento, PAM atira ao taxista o tema que vai dominar a corrida, tema esse que cai como um tijolo para o interior do carro pelo tejadilho aberto: UBER.

PAM a viver a vida no fio da navalha. Sempre a ver quando acaba esfaqueado.




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4.9.15

Daqui a uns anos lamenta-se mais qualquer coisa



Só ontem à noite acordei para a viralidade do menino que acabou por morrer quando a família lhe quis dar vida. A falta de internet tem destas coisas. 

Não estou por dentro dos contornos da guerra, sinto-me em profundo desconhecimento para compreender o que se passa verdadeiramente de um lado da guerra e na inacção de outros países, mas tenho andado o verão todo a ver notícias de barcos a chegar pelo Mediterrâneo, abarrotando de pessoas nas piores condições, um risco que para eles valerá a pena correr quando a única opção é ficar. Isto os que chegam vivos. Depois há as notícias de milhares de corpos a flutuar ou fechados em carrinhas de carga, enquanto morrem às dezenas, primeiro um, depois o que estava encostado ao outro no espaço disponível, até morrerem todos na caixa de uma carrinha com um condutor que à frente leva um maço de notas no bolso.

Estou a ler um livro difícil de mastigar: Os bebés de Auschwitz. Durante muito tempo achei que tinha um fascínio por desgraças históricas, como esta dos campos e o 11 de Setembro, para citar alguns exemplos. Mas mais tarde percebi que o meu fascínio é pelas histórias de sobrevivência, de saber mais.

O livro que estou a ler é estranho. É de tal forma macabro que a minha imaginação não consegue acompanhar o que terá sido a vida destes judeus. Fico-me pela leitura, mas sinto que a minha imaginação não consegue imaginar a verdadeira realidade, está longe de cheiros e de ter uma ideia fotográfica das condições desumanas. Mais ainda, não compreendo como tal foi possível, num mundo inteiro cheio de gente. Como foi sequer possível começar, já nem digo chegar àquele ponto.

O livro que hoje leio será o livro que os meus descendentes vão ler daqui a 50 anos, mas relatando histórias de famílias que se meteram num barco insuflável no Mediterrâneo para fugir à guerra. Pessoas que largaram tudo o que tinham, fazendo os filhos correr risco de vida, sem saber se chegavam ao destino, enquanto a Europa erguia muros com arame farpado e lançava cães nas fronteiras. Histórias que vão contar a viralidade das imagens de um menino de três anos largados às ondas de uma praia, de cara na areia como quem dorme.

E então aí será tão motivo de vergonha para o mundo e para os humanos como foi a Alemanha nazi há 75 anos. Pena que também vai ser tarde.



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24.8.15

Um dia mato este gajo #53

Na minha vida com o PAM, eu tenho sido sempre uma mulher maravilhosa, daquelas bem permissiva para seu homem. Nunca coloquei entraves, ele sempre pôde apertar as bochechas do meu rabo sem problemas.

Mas se for o inverso, o caso muda totalmente de figura.

Se eu quiser apertar-lhe o rabo, tenho de enfrentar uma cena de gritos, deparar-me com a minha vontade vetada, ver descer a maior drama queen de todos os tempos no homem que escolhi e ouvir:

- ESTÁS A ESTRAGAR-ME OS ELÁSTICOS DAS CUECAS!!!





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11.8.15

Um dia mato este gajo #53

Ao fazer a cama, pensei "mais uma colcha para lavar" e desisti.

Apareceu o PAM no quarto, esticou a colcha onde estava uma pinta escura mais aos pés da cama. Eu estava de costas e quando me virei, avisei:

- Não raspes isso com a unha, o gato andou aí a esfregar o olho!

O homem voou para o lavatório de dedo em riste para dar uso à escova das unhas.

Ainda assim, foi capaz de sair do WC reclamando que eram coisas da minha cabeça, que a pinta não era cocó de gato, blá, blá, blá.

- Se tens tanta certeza, mete na boca.

Não meteu na boca.





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9.8.15

Tesourinhos das Legislativas


Não tenho memória de um carnaval de comunicação numa campanha como a que corre agora. Até pode ter havido, mas não me lembro.

Depois de anos em comunicação dentro de um ministério, vou seguindo o assunto quase com uma gargalhada. Mas quem anda a tratar disto? Estagiários? Por outro lado, nem um bom estagiário seria tão inocente.

Não me chocou a primeira polémica da senhora que estava desempregada "há 5 anos" e, feitas as contas, tinha ficado desempregada no governo de Sócrates. Acho que foi vontade de dizer mal, o que o cartaz queria dizer era que se mantinha desempregada de longa duração, mas se reunidas as condições de descontos necessários, a senhora teve certamente direito ao subsídio de desemprego, num mínimo de 5 meses e num máximo de 30 meses, mais ou menos, pelo que a polémica foi parva.

Também não me chocaria que algumas pessoas tivessem dado a cara para representar a situação de alguns portugueses: desempregados e imigrantes, situações em que se tem focado a campanha do PS, ainda que não sendo a sua realidade. Verdade que uma representação não me choca.

O que eu não compreendo, mas mesmo, é que tenham usado o rosto de pessoas sem o seu conhecimento, atribuindo-lhes histórias das quais não sonhavam um dia dar a cara. Mas este resultado não seria de esperar? Como, mas COMO, é que uma ideia destas passa pela cabeça de um director de comunicação num país de queixinhas? É óbvio que isto só podia dar uma asneira deste tamanho, um verdadeiro tiro no pé capaz de arruinar uma campanha inteira.

Seria tão difícil, impossível, arranjar verdadeiros casos, pessoas dispostas a dar a cara? Acho que os arranjava no mesmo dia. Seria um "não custa nada", simples de fazer, há tanta gente descontente, tantos desempregados, tantos jovens que emigraram, acho mesmo que seria fácil arranjar pessoas com histórias verdadeiras, pelo que não consigo mesmo compreender esta marosca toda, sendo que o que me impressiona não é a representação, mas o total desconhecimento dos fotografados que não faziam a mínima ideia do destino das fotos (o que também é esperto da parte deles).

E o director de comunicação assume o erro e demite-se, procurando assim dar-se os ares de "separámos o trigo do joio", um "já não há maus profissionais dentro do partido", um "está tudo limpinho, já podem votar em nós", que não sei se será eficaz. O país tem memória curta, mas não sei se anda tão esquecido assim. 

O mal não estava na representação, está no abuso de usar a imagem de outros sem um seu conhecimento. Já diz o ditado "pelas costas dos outros vejo as minhas" e quer parecer-me que os portugueses ficam com a sensação "enganou estes parvos, mas a mim este gajo a mim não me engana", digo eu que há anos não posso com o António Costa, sendo que houve uma altura que até gostava dele. 

Não sou de partidos, sou de pessoas. E não gosto de nenhum candidato ao poleiro. Nenhum. Não há pessoas com tomates e não sei se o género que gostaria de ver algum dia vou ver aparecer no seio político. Uma pessoa séria como a que desejaria nunca chegaria longe, existiriam "impedimentos de maior" provocados por terceiros pouco interessados em honestidade e seriedade. Se estas cenas acontecem em locais de trabalho, não quero imaginar como é no seio político.

Já eu comentava há dias com o homem: "estou a mesmo a ver que vou ter de votar PSD contra a minha vontade para procurar impedir o PS ganhar".

Estamos largados aos bichos. Mas por outro lado, não é nada a que um português não esteja habituado.


Entretanto, deixo-vos com esta página de cartazes interessantes:



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