27.2.17

"Eu devia poder comprar"



Ei-lo, um comentário retirado da página de Facebook de uma marca de swimwear que não a minha (costumo andar de olho no alheio), um perfeito exemplar de um raciocínio que tenho dificuldade em classificar e descrever, ao qual se juntam outras pessoas na forma de like: "apoiado!", "é assim mesmo!". Como se não bastasse, esta pessoa publicou este mesmo comentário em mais do que um post da marca, de forma a garantir que não passasse despercebido. Trata-se de uma exigência, portanto.

E se uma marca respondesse na mesma ordem de ideias a este comentário? O que aconteceria?


"Juntasses dinheiro #ficaadica"

"Eu também não posso comprar tudo o que gosto, pelo que se causa toda essa mossa, o melhor é não ver #ficaadica"

"Junta 5€ por mês de um ano para o seguinte e a possibilidade de compra é garantida #ficaadica"

"Faz um trabalho extra (traduções, babysitting, limpezas, etc.) para uns trocos extra e é garantido #ficaadica"


Tinha algum jeito este tipo de respostas por parte de uma marca? Caía mal, é certo, mas é a realidade com que me deparei uma vida inteira sempre que quis algo: trabalhar, juntar e finalmente poder adquirir. Eu fiz tantos trabalhos para ter as coisas que queria! Mesada? Nem vê-la, nunca tive. Desde traduções, a tomar conta de crianças em adolescente, a menina de congressos, a promotora de produtos em supermercado, a guia na Expo'98, a orientadora de sala em salas de espectáculo, a condutora em leilões de automóveis, a recepção de convidados no Euro 2004 e outros eventos, eu perdi-lhes a conta. Mexia-me, fazia contactos e agarrava todos os pequenos trabalhos que conseguia. Não me deram mesadas, não havia dinheiro para isso, não me deram carta de condução, não me deram carros, paguei parte do meu curso superior, não pedi um tostão emprestado para fazer os meus negócios. Dei o corpo ao manifesto, trabalhei, juntei e fiz algo com o que ganhei.

Tenho hoje uma melhor vida do que na altura tinha a minha mãe com três filhas adolescentes. Olhando para trás, ter de trabalhar pelas coisas que quis porque não me apareciam pela frente não me fez mal nenhum e se calhar fez de mim o que sou hoje. Os amigos gozam-me e dizem que sou uma forreta, mas eu sou é poupada (com luxos de vez em quando) e nunca gasto aquilo que não tenho.

Tendo mais há a tentação de dar mais, pois o gesto de dar é fácil e gratificante. Mas para educar um filho penso muitas vezes nisto: como se doseia? Como se gere o que se dá a um filho, não lhe dando mais do que devemos, mesmo que eu tenha a possibilidade de dar muita coisa? Uma pessoa que recebe tudo de mão beijada ou de forma fácil não cria um espírito trabalhador e, não existam dúvidas, quero incutir um espírito de trabalho e de sacrifício à minha descendência.

Voltando ao comentário, este sentimento de que é um direito praticar preços ajustados a um menor poder de compra, ou carteira mais apertada, ou má gestão financeira põe-me doente. Não, não temos o direito de poder comprar tudo. Ninguém tem, não se trata de um direito. Temos o direito de sonhar, temos o direito de trabalhar pelo que queremos, mas este tipo de comentários é só representativo de um QI negativo para não falar da falta de noção do que é ter um negócio em Portugal e da falta de sensibilidade de deixar um comentário destes na página de uma marca. O que acharão os autores deste tipo de comentários que vai acontecer? Que a marca vai descer os preços e comprometer o business plan para agradar estas alminhas? Que vão passar a trabalhar para aquecer para agradar estas alminhas? Estas pessoas acham que é tudo a entrar, que a facturação é igual ao lucro, mas não há qualquer noção sobre os custos, os impostos e aquilo que sobra. 

Na mesma linha de pensamento, permitam-me passar ali os olhos na Prada e deixar-lhes um comentário catita numas malas que acho tão jeitosas: "you should lower your prices so I could afford one". Ou então tenho duas alternativas sobre a gestão financeira pessoal: repenso prioridades, redefino onde gasto o quê ou, ainda, arranjo maneira de ganhar mais uns trocos para os 100€ que eu tanto queria gastar naquele bikini ou fato de banho. Pelo caminho tratava de aprender a diferença entre produzir em Portugal ou no Bangladesh, imaginar custos (fazer efectivamente contas num papel pode ser produtivo) e perceber se estou no direito de exigir um bikini a um preço ideal para estas pessoas que (garanto) não paga o preço de custo para uma marca portuguesa.

Ter um pequeno negócio neste país está longe da perfeição. É bom para a alma, para o sentimento de realização pessoal, para gostar do que se faz, para poder gerir a profissão à nossa vontade, mas raras vezes é para ficar rico, esqueçam isso, já é espectacular se der para viver dessa ideia. Mas não é tudo bom e ainda têm de aturar este tipo de não-clientes "sábios" que deixam comentários nas redes sociais com uma bandeira que representa a vergonha alheia da total falta de noção.

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24.2.17

"Já nasceu?"



Há dias, entre o meu telefone e o dele, começámos a saturar. Perguntas, umas atrás das outras, "então não nasce?", "ainda demora?", "afinal é para quando?". Quando começámos a fazer contas ao somatório, fiz esta publicação no meu Facebook pessoal.

Depois do meu lado ainda acresce o blogue. Se não publico alguma coisa por um par de horas, logo começam a pingar mensagens com as mesmas perguntas e algumas acrescidas de certezas: "tenho a sensação que já nasceu". Às vezes apetece-me nem olhar para o telefone, mas o iPhone é para mim uma boa fonte de distracção, sobretudo quando acordo a meio da noite e o sono fica em stand-by. 

Se sou avistada no consultório ou no hospital, onde vou de rotina como outras grávidas, numa questão de segundos aparecem mensagens e comentários. Vou ao telefone para me distrair enquanto espero que chamem pelo meu nome como em qualquer consulta e acabo por ler mesmo quando não quero: "acho que a vi no hospital, é agora!".

Entre família, amigos, conhecidos e o blogue, chega a ser incalculável. Atenção, não existe qualquer dúvida que a intenção é a melhor de todas, que as pessoas o fazem de coração, mas falta vestir a nossa pele e imaginar como é receber estes contactos, um após um, outro após mais um. É que não pára. A intenção é a melhor, não há dúvida quanto a isso, mas se pensarmos bem, o que adianta a pergunta? Não nasce mais cedo nem vamos dar informações em exclusivo.

Deste lado a sensação não é espectacular. Sente-se pressão e perseguição, sendo que ao mesmo tempo sabemos o interesse é simpático e genuíno. Ou seja, perseguidos, fartos e com um sentimento de estarmos a ser injustos porque as pessoas na verdade estão a ser simpáticas. Como se gere isso? Não sei, mas tenho de confessar que preferia que não me perguntassem nada. Não, ninguém precisa de me pedir desculpa por ter contactado (é voltar ao mesmo, por favor não e nem é caso para tal), mas se formos racionais as perguntas não vão mudar nada ou, melhor, só muda para nós que também estamos à espera e as vamos recebendo em modo chuva.

Mas uma coisa podemos garantir, quando nascer não vamos esconder e terá direito a publicação. Até lá é esperar, tal como nós.

Obrigada pelas mensagens e carinho, não levem a mal, mas precisamos de uma pequena folga dessa pressão não intencional 


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© A Maçã de Eva

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